A Crise dos Livros

Eu e a Escrita

A Crise dos Livros: Mito ou Realidade?

Num Site e Blogue sobre livros e leituras nunca é de mais abordar esta temática.
Afinal, será que existe uma real crise no mercado dos livros, ou a situação tem sido, de um modo geral, exacerbada por quem se move no meio?
A resposta é: a crise não é um mito e todos os dias mostra a sua faceta.

Eu e a Escrita

A história de uma Feira do Livro

Tive a oportunidade de visitar por estes dias a Feira do Livro de Braga, que congrega autores, leitores, editores e alfarrabistas, mantendo ainda viva uma das últimas réstias de esperança neste mercado. Digo isto, porque quando lá fui, no horário pós-laboral, não se viam praticamente visitantes a circular por entre os pavilhões. A uma certa hora até, a feira estava totalmente deserta.
Nunca é de mais sublinhar os aspetos práticos deste negócio, sobretudo se não o encararmos como ele é, se queremos que sobreviva: um negócio. Sim, um negócio com alma e espírito, mas ainda assim um negócio.
Entristeceu-me bastante ver ao ponto a que chegamos no que toca aos livros e à sua desvalorização face a outras formas de entretenimento. Não sendo um problema específico do sector é porventura comum à cultura em geral.  É apreciável o esforço de colocar os livros ao alcance da bolsa dos portugueses, sobretudo porque dinheiro é coisa que não abunda entre nós; ainda assim, o prognóstico do sector é muito preocupante. Podem ver e comprar o meu livro aqui.

Eu e a Escrita

Que futuro para os livros?

Compreendo que exista uma visão idealizada em torno dos livros, imaginando o escritor bafejado pela inspiração, integrado no ambiente que o rodeia, numa simbiose perfeita, um privilégio não partilhado pelo comum dos mortais. 
Hoje em dia, esta ideia não podia estar mais longe da realidade.

Eu e a Escrita

Passos para reanimar o doente

A reanimação do mercado livreiro passa por uma abordagem diferente do livro, quer por parte dos autores quer dos editores e até do público em geral. A ideia, como no passado, de que o autor podia ser um estigmatizado, alguém em quem bastava o dom da escrita e muita capacidade de resistência, retirando por vezes à boca o alimento de que ele e os seus necessitavam, está hoje completamente ultrapassada. O livro tornou-se um negócio, um produto mercantil, que tem de ser encarado enquanto tal, assim como outros produtos resultantes da imaginação e criatividade humanas. Passa certamente pela sua promoção e difusão em diferentes plataformas tradicionais, como as livrarias e as feiras do livro, mas também, cada vez mais, através dos meios digitais, difundidos quer pelas entidades editoriais quer por iniciativa dos próprios autores. Da parte destes, a divulgação do seu trabalho terá que implicar o uso das mais recentes ferramentas online, como o site e o blogue.

O processo para a reanimação dos livros é complexo, implica porventura muito tempo e trabalho. E os resultados podem demorar, mais do que pensamos ou desejamos, para o que devemos estar preparados.

Eu e a Escrita

Soluções à vista?

Se a crise dos livros não é um mito, mas sim uma realidade, obrigando a um trabalho demorado e profundo, que poderá levar algum tempo, é natural que muitos queiram apenas apreciar o caminho. 

Tantas vezes ameaçado de morte, o livro tem conseguido sobreviver. Desde as tabuinhas de argila da Mesopotâmia, passando pelos textos egípcios em papiro, ou em pergaminho medieval, o livro tradicional não é mais do que o resultado de um longo processo evolutivo que não se encerra no papel. Certamente que outras formas de difusão da escrita irão surgir e porventura dominar. Por ora, o digital parece ganhar vantagem, mas a História também nos ensina que pode não ser necessariamente assim. Em qualquer dos casos, independentemente da sua forma material, o livro é uma janela aberta ao presente, mas que também nos permite aceder à memória coletiva de gerações, civilizações e culturas muito diferentes. 

Só por isso, o livro deveria ter um pódio reservado só para ele.

Neste processo, os meios de comunicação social têm também um importante papel a desempenhar, podendo contribuir, através da divulgação de diversas áreas culturais, para o acesso e a apetência dos livros.

Hoje, os potenciais leitores não se cingem a grupos bem delimitados como no passado. A alfabetização generalizada da população permite uma difusão do livro entre todas as camadas e grupos sociais. O que existe muitas vezes é a falta de estímulo e de divulgação. Atente-se, por exemplo, no caso dos meios de comunicação, a começar pela televisão. Os programas que existem destinados à cultura ocupam um espaço e tempo televisivos de reduzido impacto nas diversas camadas sociais.

Os clubes de leitura são outro dos meios que podiam promover a leitura quer em ligação às bibliotecas públicas quer através de associações e organizações particulares.

O livro não tem de ficar encerrado numa espécie de gaiola para servir de estímulo a um grupo reduzido de intelectuais. O pretexto por vezes invocado para que não surjam mais programas de divulgação do livro residiria na falta de interesse dos eventuais leitores. Mas essa é, na minha opinião, uma falácia! Se não lhes for dada essa oportunidade, inevitavelmente que alguns destes potenciais leitores não encontrarão por si próprios o caminho do livro. Há, em suma, que apostar na difusão e promoção do objeto impresso, como se faz com outros sectores e atividades. O livro molda culturas, consciências e é um pilar fundamental para a construção de uma democracia aberta e crítica.

Eu e a Escrita

Últimas observações

Se quiserem partilhar as vossas opiniões/ visões sobre o mercado dos livros – porque o primeiro passo é sempre ouvir as pessoas – podem contactar-me através das redes sociais.

Espero que este texto tenha sido útil como mais uma reflexão em torno do tema da crise dos livros. Não é apenas importante diagnosticar o problema, como também receitar o medicamento certo para a patologia.

Vamos fazer parte da mudança?