Eu, Leitora

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Eu leitora e os hábitos de leitura:
vamos a tempo, ou perdemos o comboio?

Embora este seja um website e um blogue sobre os meus livros e o meu processo de escrita, nunca nos devemos esquecer que um Escritor/a começa sempre o seu caminho como Leitor/a.

Para recordar os meus primeiros anos como leitora, tenho que recuar na minha memória até aos doze anos. Até essa altura, era alguém que lia com pouca regularidade. Embora estivesse rodeada de livros, penso que possuía um complexo de inferioridade em relação às palavras, o que era bem evidente pelas dificuldades que sentia através da leitura e da escrita. Não foi um processo fácil a transição para um sentimento de conforto com as letras. E, embora tenha adquirido hábitos de leitura depois da infância, a verdade é que isso não me impediu de “apanhar o comboio a tempo”.

De facto, andamos todos muito preocupados em “não perder o comboio” em qualquer das áreas da vida. Esta permanente preocupação não nos permite antever que com vontade é quase tudo praticamente possível e que a infância, apesar de ser uma fase crucial da nossa evolução, não é o nosso testamento vital.

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A minha jornada na leitura e a minha aprendizagem

Era um verão quente e lembro-me de estar em cima do meu beliche, quando comecei a pensar em todos os livros de Júlio Verne que o meu pai comprara para nós há muitos anos atrás. Não sei, ainda hoje, o que me levou a tomar a decisão de começar a ler um daqueles vários volumes e, confesso, que após as primeiras páginas, quis desistir.

Resisti, até ao fim, em abandonar a leitura do livro, e ainda bem que o fiz, porque foi o sentimento de conquista e de confiança que ganhei com aquele momento que me fez abrir o coração para os livros. A partir daqui, nunca mais parei. Comecei a exigir cada vez mais de mim, e passados poucos anos era uma leitora assídua e compulsiva, que já tinha lido alguns clássicos, como “As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck e “Crime e Castigo” de Fiódor Dostoiévski.

O meu vocabulário expandiu-se a um ponto que nunca julguei possível. Percebi que com estes novos hábitos de leitura acabara por ganhar maior desenvoltura na escrita e que sabia expressar melhor os meus sentimentos. Essa era uma dificuldade que eu tinha, tanto a nível escrito como oral. Também do ponto de vista cognitivo senti-me mais expedita a interpretar textos e a atribuir-lhes novos significados.

Ler faz bem

Aliás, ler faz muito bem e falo pela minha experiência pessoal. É por isso que é tão importante abordar e falar de livros às crianças, pois mesmo que a paixão pelas palavras não nasça de imediato, é muito provável que mais tarde ela pegue num livro e crie os seus próprios hábitos de leitura.

Um livro é um instrumento de poder. É algo com o qual podemos desenvolver a nossa criatividade, inteligência, cultura e compreensão, quer em relação a nós próprios quer em relação aos outros e ao mundo. Através dos livros alargamos os nossos horizontes, o espírito crítico, e tornamo-nos mais livres e capazes de discernir de forma autónoma o que devemos ou não aceitar e valorizar. Este poder que os livros nos confere possui um valor incalculável.

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Eu leitora – as minhas preferências 

Como qualquer leitor/a, as minhas preferências literárias foram mudando ao longo dos anos, o que é natural. Também é natural, e já li e ouvi acerca deste fenómeno, que após um longo período de leitura intensiva, sintamos a necessidade de parar, quebrar a rotina, pelo menos durante algum tempo. Tudo isso é normal e salutar. Faz parte da nossa evolução enquanto leitores/as.

Tal como a maioria das pessoas, comecei por ler muitos romances. As histórias de ficção, os livros de Isabel Allende e alguns clássicos faziam parte das minhas escolhas literárias. Aprendi imenso com os livros quando não tinha mais ninguém ao meu lado para me acompanhar e, por isso, estou-lhes eternamente grata. Gostava particularmente de livros onde as heroínas eram mulheres e, aos poucos, fui absorvendo os textos fantásticos da coleção “Brumas de Avalon”, de Marion Zimmer Bradley.

Li muitos livros até entrar na faculdade, mas depois refreei o meu ritmo. De uma maneira ou de outra, todos eles contribuíram para eu me tornar a pessoa que hoje sou.

Algum tempo depois, regressei à leitura através de um pequeno livro de crónicas de uma jornalista portuguesa. Agora, numa diferente fase da vida, interessava-me sobretudo conhecer a história daqueles que nos precederam. Conhecer os factos e personagens que constituem as referências culturais da nossa sociedade e do mundo contemporâneo. Por exemplo, gostei muito de ler “Os Templários”, de Dan Jones. Seguiram-se outras leituras de carácter biográfico como a de “Eça de Queirós”, por Filomena Mónica, “Amélia de Orleães: a Rainha Mal-Amada”, de Margarida Durães e “O Mundo de Ontem” de Stefan Zweig.

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Leio de tudo!

Não sou elitista nem partidária, nas minhas leituras.

Leio de tudo, desde textos policiais, históricos, de entretenimento e, claro, espirituais e de reflexão coletiva (estou a lembrar-me do livro “A Civilização do Espetáculo”, de Mário Vargas Llosa).

Para quem ingressa o mundo da leitura, rapidamente se apercebe da quantidade de livros que existem à sua disposição. Se no passado houve quem tentasse reunir toda a produção escrita, como foi o caso da célebre biblioteca de Alexandria, hoje essa é uma tarefa absolutamente inviável, mais ainda pretender ler ou sequer conhecer todas as obras de um único género ou ramo literário.

Se é impossível lê-los a todos, podemos por exemplo construir uma lista de leitura para um determinado período de tempo ou em função de um tema que nos motive.

É uma sugestão que deixo para todos aqueles que, por vezes, se sentem perdidos com a profusão de livros ao nosso alcance. Os “clássicos” devem fazer parte da nossa formação, mas sou da opinião que a sua leitura deve ser remetida para uma fase mais madura da vida, de forma a compreender e interpretar melhor as referências e o contexto cultural que em geral estas obras transportam. 

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Estou mesmo a chegar ao fim do meu artigo, mas muito fica por dizer.

Não se esqueçam de oferecer livros aos vossos filhos, não só nos aniversários e nos dias comemorativos do livro, mas sempre que as circunstâncias o proporcionarem. Um dia, essa leitura irá ajudá-los muito mais do que alguma vez poderemos imaginar.