Sonho de uma vida autêntica

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O que é isso de vida autêntica?

O próximo artigo que estão prestes a ler, deveria ter sido incluído numa coletânea de pequenos textos, a serem publicados num jornal regional. A pertinência de algumas destas observações e o amor que tenho à escrita, fazem com que o inclua aqui: é um artigo que nunca foi publicado e que pode ser do interesse de muitos.

Neste texto, abordo o sentido de “vida autêntica”: uma vida que se rege por um retorno à terra e à natureza, num mundo cada vez mais massificado, em que se perderam os sabores e cheiros de antigamente.

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A procura por uma vida autêntica

Conhecer sítios que nos surpreendem pela sua beleza e silêncio é algo que está apontado no meu Diário de bordo. Gosto do isolamento que certos locais me fazem sentir, porque sinto aqui uma maior ligação com um mundo que transcende o meu. Para alguns, esta sensação pode ser avassaladora e incomodativa, mas para mim é de uma beleza enorme. O mistério de certas terras fascina-me e atrai-me.

O facto de ter sempre vivido na cidade, fez-me desejar ter uma vida autêntica: uma rotina mais ligada à natureza, menos material, com mais tempo de qualidade e mais tempo para viver e para escrever. Foi sob o título “Sonho de uma Vida autêntica” que escrevi, o ano passado, os contornos de uma viagem a Marvão.

Espero que gostem.

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Uma viagem à autenticidade: o Azeite

Era o último dia do ano (muito frio, estava apenas 1 grau cá fora) e conduzimos o carro em direção a um vale que desconhecíamos na região do Alentejo. Poucos são os portugueses que se lembrariam de, no dia 31 de dezembro, nas vésperas de um novo ano, visitar o Lagar Museu Melara Picado Nunes.

Ao chegarmos, apercebemo-nos de que apenas nós, mais outro casal, éramos os visitantes naquele dia.

“Não costumo receber portugueses nestas visitas; aliás, quase sempre são estrangeiros. Por isso, hoje no último dia do ano, estarem aqui só portugueses, é uma surpresa”, dizia-nos o agora proprietário e gestor de todo o espaço.

Após a visita ao antigo lagar, ficamos a saber que ali se produzia o “Azeite Castelo de Marvão”, tão pouco conhecido e comercializado na capital. Seguiu-se uma prova de azeites, bem degustada com um magnífico pedaço de pão alentejano. O que veio a seguir, foi uma revelação.

Depois da visita ao lagar, chegamos a uma sala com uma mesa bem guarnecida de várias marcas de azeites (não identificadas – era uma prova cega), uns mais conhecidos do que outros. Provámos um pouco de tudo, até chegarmos à conclusão que alguns daqueles líquidos dourados não sabiam a azeite. “É isto que andamos a usar na cidade como tempero?”, perguntávamos uns aos outros. Sim, desconhecíamos o verdadeiro sabor do azeite.

Naquele dia pus-me a pensar: quantos cheiros e sensações perdemos com a industrialização da comida? Passamos, por exemplo, anos a regar as nossas alfaces com um azeite do qual não conhecemos o seu autêntico sabor. Fiquei mais consciente, a partir deste dia, do nosso afastamento de uma vida autêntica. Os sabores e os cheiros estavam já todos massificados, ao ponto de não reconhecermos mais a autenticidade no paladar e no olfato.

Não é por acaso que ouvimos falar cada vez mais num retorno às origens, na necessidade de ressuscitar uma vida autêntica, de comungar com os prazeres da terra. Como será possível passar pela vida sem realmente saber como sabe o autêntico e puro azeite?

E quem diz azeite, diz muitas outras coisas. Pão. Carne. Ovos.

Tenho a certeza que estes pensamentos seriam confirmados pelos mais velhos e sábios das aldeias. Lá, no fundo, apenas eles conhecem estes sabores primários dos produtos, o que faz deles, verdadeiros guardiões de um tesouro precioso: o sabor!

O sabor…até os romanos saberiam melhor do que nós, qual era o sabor do verdadeiro azeite. Assim sendo, perdemos a luta para os romanos, acho eu…e talvez, se as pedras da cidade romana de Ammaia falassem, elas diriam precisamente o mesmo.

Vendo o website do “Azeite Castelo de Marvão”, pode ler-se que a tradição dos tempos manda pentear as ramas com as mãos calejadas, para se colher a melhor azeitona galega do Parque Natural da Serra de São Mamede. Se calhar, é isso que está em falta, neste nosso mundo, tão longe dos prazeres da terra. Já ninguém quer sujar ou magoar as mãos para extrair da vida, um cheiro, um sabor ou um sentimento verdadeiramente autêntico!